domingo, 24 de abril de 2011

Trekking no Nepal - Annapurna Base Camp (ABC)


Bom, por onde começar!?... Depois de um longo período sem postar volto ao meu blog com diversas novidades, para começar eu vou contar como foi a maravilhosa experiência de fazer um trekking nos picos gelados do Himalia.

Cachoeira de águas geladas


O trekkiing que eu escolhi foi de 10 dias, é considerado um trekking de nível intermediário (dados do guia Lonely Planet), a altura máxima por volta de 4100 metros. A trilha começa em uma pacata cidadezinha de nome Nayapul localizada a uma hora e meia de Pokhara, para chegar lá é só pegar um ônibus ou taxi. Logo de início a trilha segue ao lado de um riozinho de água cristalina que forma diversas cachoeiras ao longo de todo o caminho. O primeiro dia é só faz de conta, uma hora e meia de trekking subidinhas leves até Ulleri. No caminho a gente passa por diversas pessoas fazendo trekking, carregando coisas para levar para as vilas, cachorros, crianças brincando e é claro paisagens maravilhosas. A trilha, independente do trekking começa igual para todo mundo, então nos primeiros dias todos fazem mais ou menos o mesmo percurso e você pode ver muito mais gente nas trilhas.

Marie e Kassila - Amigas da França


No segundo dia eu e meu guia nos juntamos a um grupo de duas francesas e seu guia. Este dia começa com uma subida interminável de milhares de degraus, é extremamente cansativo, em algumas horas eu me arrependia de ter levado meu equipamento fotográfico tão pesado, mas no final compensou muito carregar todo o peso e ter fotos maravilhosas para guardar pro resto da minha vida. Nesse dia andamos quase oito horas até a vila chamada Ghorepani, foi bem cansativo, no final do dia estava frio e já se podia ver os picos gelados da varanda da hospedaria (toda hospedaria ao longo da trilha tem nomes como vista bonita, pico alto, melhor vista, é uma originalidade!). Ao longo deste dia pude conversar bastante com as meninas do meu grupo e pra minha sorte elas eram muito divertidas e simpáticas, as duas estão também fazendo uma viagem de volta ao mundo (já até perdeu a graça, todo mundo faz isso por aqui! Hahaha) a delas é de seis meses (a maioria das pessoas que encontrei pelo meu caminho até agora faz em seis meses). A média de caminhada do trekking é de oito horas por dia, mas nós sempre saímos bem cedo, então sempre chegávamos entre 15:00 e 16:00, o que nos dá tempo de sobra para não fazer nada até o dia seguinte. Fiz diversos amigos ao longo do caminho, tem muita gente de todo o mundo fazendo trilha no Nepal principalmente franceses (eles estão em todo lugar!). Mas bom ter este tempo para descansar por que o trekking é bem pesado, durante o dia meus dedos quase explodiam, as pernas ficam completamente doloridas nos quatro primeiro dias, depois acostumam.

Nascer do sol em Punhill


Do terceiro dia em diante é pauleira, sobe e desce montanha, uma mais alta que a outra. Tem dia que você parte de manhã e vê da sua hospedaria o local que você vai dormir, parece que vai chegar lá em uma hora, mas quando põe o pé na estrada... vixe... bota hora nisso!... O terceiro dia é especial porque a gente acorda as 5:00 da matina pra pegar uma trilha subindo um morro gigante só pra ver o sol nascer no meio dos picos gelados do Himalaia, o visual é indescritível, na sua frente um vale gigante, um frio do cacete, muita gente todos com lanterninha na cabeça marchando em coro para ver a aurora... só digo uma coisa... valeu muito a pena, as fotos não conseguem mostrar a beleza do evento. Depois disso é descer morro e seguir em direção oposta, o dia já começa bem, uma hora pra subir, meia hora pra descer e depois mais seis horas subindo e descendo montanha. A paisagem é belíssima durante todo o caminho e nunca fica cansativo porque muda o tempo todo, uma hora você entra numa floresta, depois sai num vale onde pode ver pra todo canto plantações de arroz nas costas dos morros, depois vê rios e cachoeiras cruzando o caminho o tempo todo (uma hora eu entrei num poço de água cristalina de uma destas cachoeiras só pra ver como era a sensação... foi a água mais congelante que eu já entrei na minha vida, tenta entrar numa piscina cheia de gelo, as águas desses rios vem direto do degelo dos picos mais altos das montanhas). Resumindo, o visual é inacreditável e o suor vale a pena 100%.

Para o alto e avante!


Quarto dia parece piada, você consegue ver logo ali o ponto de destino, e é só descer e subir para chegar lá, mas é descer 1000 metros e subir 1300!!! Um dia inteiro pra fazer isso, chegamos poucos minutos a frente de uma tempestade que passou por ali, foi o tempo exato. Graças a Deus não pegamos chuva forte nenhum dia e a maior parte de todos os dias fez sol durante a trilha (mas chove todo dia nas montanhas por volta das 17:00). Neste quarto conheci o quarto integrante do nosso grupo, Caleb de Hong Kong, figurassa o nome dele em Chinê é Ung (alguma coisa assim) se pronuncia da mesma forma que a gente faz quando vai perguntar alguma coisa quando não entendeu, hum!? Haha, nem precisa dizer que isso foi motivo de piada pelo resto do trekking entre eu e as meninas. Caleb é muito gente fina e tem um senso de humor ótimo, fiz um bom amigo esse dia.

Caleb (Homg Kong), Kassila e Marie


Quinto dia: mais sobe desce, nada em especial além da fantástica paisagem, mas os picos gelados começam a ficar cada vez mais perto, no fim do dia estamos quase na porta de entrada para a montanha Annapurna, parece que se você esticar a mão na paisagem você pode tocar os picos nevados. E nem precisa dizer que a temperatura com isso despenca também! A noite é preciso duas cobertas. A comida durante o percurso sobe de valor de acordo com a distância e a altura, um prato que no primeiro dia da viagem custava cinco dólares, no sexto dia (que é o local mais distante) chega a custar vinte dólares, o mesmo prato. E não é porque o povo do Nepal é capitalista selvagem e quer arrancar o teu coro não, é só pelo fato de que eles tem que carregar todos os ingredientes para fazer a comida, inclusive o gás para cozinhar e aquecer, nas costas, é impressionante quanta força esses caboco tem no pescoço! Em um dos dias vi um grupo de Nepaleses carregando toras de madeira subindo morro acima... impressionante.

Senhor carregando folhas para a sua vila


O sexto dia é o melhor, não tem mais tanta subida íngreme apesar ser uma diferença de 1000 metros de altura é na manha, os últimos 500 metros é só neve pra todo lado a paisagem é branca, as últimas duas horas de caminhada foram de neve forte, o chão é bem escorregadio. Tem que prestar muita atenção o tempo todo, eu não senti tanto o cansaço da altitude como haviam me durante o percurso os que estavam voltando, só percebi que se eu fizesse qualquer esforço a mais tipo dar uma pequena corridinha para tirar uma foto, eu ficava mais ofegante, mas passava bem rápido também, acho que os últimos dois meses e meio de caminhada intensiva pelo mundo a fora me deixaram em boa forma, hehe. Chegando na base do Annapurna, depois de algumas horas o sol abriu por alguns minutos e deu pra ver a paisagem belíssima, tirei algumas fotos mas por algum azar dos diabos mexi em uma configuração da máquina sem perceber e a maioria das fotos saiu com o branco super exposto, só fui perceber depois quando não havia mais sol. Mas deu pra salvar umas fotos muito boas.

Avalanche bloqueando a estrada


No sétimo dia de manhã acordamos de novo bem cedinho, 5:30 da manhã para ver o nascer do sol, coisa que nunca aconteceu, quer dizer, o sol nasceu, nós é que não conseguimos ver porque o tempo estava super fechado! É... fazer o que, esse era para ser o visual mais belo de toda a viagem, mas fica pra próxima, tudo o que pudemos fazer é juntar as nossas coisas e começar a voltar (essa é uma das grandes desvantagens de ir com guia e pagar pacote fechado, se estivéssemos sozinhos poderíamos ter ficado mais um dia lá de bobeira e esperado o dia seguinte, que pelo que soubemos depois por outros que foram depois da gente no dia seguinte, o dia foi belíssimo. Mas num tem problema não é bom que tenho motivo pra voltar de novo depois de alguns anos. Este foi de longe o pior dia do trekking, uma das amigas da França que já vinha passando mal desde o segundo dia, piorou bastante neste dia, ela tem um problema crônico no estômago, então fomos bem devagar parando sempre para acompanhá-la e para checar se estava tudo bem. Para piorar a situação no início da trilha nevou bastante e com vento forte, e depois chuva o dia inteiro, muito frio, é... sem dúvidas!... o pior dia do trekking. Chegamos bem tarde ao nosso destino deste dia.

Annapurna Base Camp


Os últimos três dias foram de tempo bom, com chuvas esparsas, mas a Kassila (amiga da França) continuou passando mal, então decidimos fazer uma volta mais rápida cortando por um caminho mais fácil sem tanto sobe e desce, os últimos dois dias foram bem tranqüilos, três e duas horas respectivamente de caminhada leve.

Hospedaria em baixo da neve, pensa no frio!


Bom é isso, esse foi o meu trekking, a respeito dos detalhes práticos, tudo fica mais difícil a medida que se vai subindo, banho quente nos últimos dias é luxo e você tem que pagar por isso. Comida como eu falei chega a custar quatro vezes mais, o que mais me impressionou é o preço do ovo, dois ovos cozidos, por exemplo, no ABC custam quase cinco dólares. Dor você tem que aprender a viver com ela, ela vai ser a sua acompanhante fiel de todos os momentos, tem vezes que você passa três horas seguidas descendo degraus gigantes seu joelho parece que vai explodir! Roupas! Leve o mínimo possível, eu levei o suficiente e minha mochilinha do notebook deu conta do serviço, claro que nos últimos três dias só usei roupa suja e fedida né, porque no frio num dá pra ficar lavando roupa, mas quem ta ligando pro cheiro dos outros no trekking? (o que mais me impressionava era que de vez em quando passava umas mulheres pelo caminho todas cheirosas e eu pensava! COMO!!!???... mulheres, vai entendê-las). Normalmente quem leva muita coisa pro trekking (mulheres) paga uma outra pessoa além do guia para levar a/as mochilas, não sai barato a brincadeira não, mas pelo menos você não carrega peso nas costas subindo e descendo e consegue ficar cheiroso/a durante o trekking, hahaha. Dá pra levar o mínimo de roupas, um par de tênis, um conjunto de casaco e capa de chuva bons para o vento e chuva/neve, segunda pele para usar a noite pra dormir. É bom levar bateria extra para equipamento fotográfico ou seja lá o que você for usar de eletrônico porque nas vilas nem sempre eles tem eletricidade o tempo todo e muitas vezes você tem que pagar para usar a única tomada que eles tem disponível no lugar. Você tem que estar muito bem preparado física e psicologicamente para fazer um exercício deste, não vai pensando ai da cadeira do computador que você vai entrar no primeiro avião para fazer um tekking no Nepal se você não faz exercício nenhum porque não é assim que as coisas funcionam, muita gente desiste e volta nos primeiros dois dias, é MUITO puxado, não é brincadeira, quando o físico ta no limite o mental começa a te puxar pra baixo, você só quer parar e ficar ali, para sempre! Tinha dia que meus dedos dos pés doíam tanto que eu só queria ir mais rápido pra acabar logo com isso, e quando você acha que não pode piorar! Sempre pode ficar pior, chuva, avalanche bloqueando a estrada, frio, frio e mais frio! Mas como eu falei, para compensar tudo isso tem sempre uma magnífica paisagem ao seu lado, é só tomar um pouco de fôlego, olhar pro lado e seguir devagarzinho. É bom ter um calçado muuuuito confortável, eu tive de alugar um usado para fazer o trekking porque não tinha espaço na minha mala para carregar bota de trilha, não aconselho ninguém fazer isso, muita gente faz a trilha com tênis de corrida, é sem dúvida  a melhor opção, só é ruim nos últimos dias que você vai ter de andar na neve, o pé fica encharcado e congelado, mas sempre tem um aquecedorzinho de perna debaixo das mesas nos alojamentos dos picos nevados. Quem não tem preparo físico eu aconselho que comece a treinar pelo menos um mês antes, ande umas oito horas por dia, suba e desça escadas o máximo que puder (sem brincadeira, no mínimo três horas por dia subindo e descendo escada) e tudo isso com uma mochila nas costas. Daí acho que você não vai ter tanto problema e não vai sentir tanta dor durante o processo.

Highlights - Vista do caminho


Acho que é tudo, se alguém tiver alguma dúvida específica ou se eu me esqueci de falar algum ponto muito importante, por favor, faça comentários aqui em baixo ou me envie e-mail (labar47@gmail.com).
Abração a todos.

Hightlights - Outra amostra do que se vê por lá



Depois eu posto o resto das fotos no Flickr, tenho que atualizar muito ainda o blog, estou escrevendo da Malásia de uma ilha paradisíaca chamada Redang, simplesmente considerada uma das praias mais bonitas do mundo.


3 comentários:

  1. Esse poema do Yuyutsu Sharma era para durante as caminhadas, mas também pode ser pra depois:


    Mules
    On the great Tibetan 
salt route they meet me again
    old forsaken friends ...
    On their faces
 fatigue of a drunken sleep
    their lives worn out,
their legs twisted, shaking
    from carrying 
illustrious flags of bleeding ascents.
    Age long bells clinging 
to them like festering wounds
    beating notes
 of a slavery modernism brings:
    cartons of Iceberg, mineral water bottles,
solar heaters, Chinese tiles, tin cans, carom boards
    sacks of rice 
and iodized salt from the plains of Nepal Terai.
    Butterflies of 
the terraced fields know their names.
    Singing brooks tempests 
of their breathless climbs.
    Traffic alert 
and time-tested, they climb
    carrying 
dreams of posh peacocks
    pamphlets 
of a secret religious war
    filth 
of an ecologist's sterile semen
    entire kitchen 
for a cocktail party at the base camp
    defunct development
 agenda of guilty donors
    the West's weird visions 
lusting for an instant purge.
    Stone steps 
of the mountains embossed
    on their drugged brains,
like lines of aborted love
    scratched
 on the historic rocks of waterspouts.
    Starry skies 
of the dozing valleys know
    the ache 
of their secret sweat.
    Sunny days 
along the crystal rivers
    taste
 of their bleeding eyes.
    Greatest fiction
 of the struggling lives lost,
    like real mules 
clattering their hooves on the flagstones,
    in circling
the cruel grandeur
    of blood thirsty
mule paths around the glacial of Annapurnas.

    Faz algum sentido, "the West's weird visions 
lusting for an instant purge"?

    Teresa Labarrère

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  2. Oi Guilherme. Você foi quando? Estou indo agora em outubro...voce falou de neve...não to a fim de pegar neve!rs

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    1. Oi Fernanda, eu fui em Abril de 2011, eu não posso te dar certeza mas eu penso que devido a altitude os grandes picos do Himalaia como Everest, Annapurna e outros independente da época do ano, estão sempre cobertos de neve! Mas para mim na verdade isso é o que foi o mais interessante desta experiência, se você quiser mesmo evitar a neve existem diversas trilhas que saem de Pokhara ou Katmandu e que não sobem tão alto nas montanhas evitando assim qualquer possibilidade de pegar neve pelo caminho. Chegando no Nepal procure se informar em alguma agência de turismo e pegue os mapas das trilhas que você pode encontrar ao redor. Boa sorte e te desejo uma ótima viagem!

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